Seus olhos foram baixando ao passo que a porta do elevador se fechava. Pode vê-lo ainda relance antes do estalo mas, logo em seguida, encarava seu reflexo distorcido na superfície metálica fosca.

O sorriso da noite passada era como a tal, passado. Tinha desaparecido sem vestígios. Trazia uma expressão tão triste e desamparada que não conseguia mais encarar a si mesma. Fixou-se em algum ponto do teto e lá ficou a pensar.

Tivera, ao todo, 45 minutos com ele e sabia que maior seria o tempo que passaria sem. Sentiu a garganta fechar e conheceu o que estava por vir. Derramou então aquelas lágrimas, as 5, compassadamente, silenciosamente...

Quando chegou ao térreo, já trazia os óculos no rosto e julgava-se 'bem', mas ainda não podia sorrir.

O segundo andar nunca esteve tão longe.
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Sentou-se meio curvado defronte a televisão, mas sequer sabia o que lá passava. Não por desatenção, natural das crianças daquela idade. Franzia as pequeninas sobrancelhas e contorcia os lábios...gesto quase próprio dos adultos. Preocupado, ele estava.

Quando, de longe, ouvia as lágrimas escorrerem, levantava-se vagarosamente e encarava-a. Ela podia enxergar o afeto naqueles olhos graúdos e amendoados, mas sentia tanta pena de si mesma que não tinha forças para percebê-lo naquele momento.

Ele lá ficava. Vez por outra colocava a mão no queixo ou soltava a respiração. Parecia saber que mais palavras não adiantavam.
Os minutos foram passando e, aos poucos, ela foi recobrando a 'imponência dos mais velhos'. Teve coragem para olhá-lo, enfim, e viu. Ela deve ter passado muito tempo naquele estado de desligamento. Tinha diante de si tanta maturidade que não soube precisar qual dos dois era mais 'vivido'. Colocou as pálidas mãos sobre os joelhos, abaixou-se até que ficassem da mesma altura e perguntou, perdida, ao homenzinho:

- O que se há de fazer?

Pediu ajuda.
Ele foi até a cozinha, trouxe-lhe um copo de água.
- Não sei. Eu só tenho 10 anos.

Sentou-se meio curvado defronte a televisão e absorto ficou com o seu quinto desenho animado favorito.

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A mocinha se alimentava de ilusões somente.
Comi-as no café-da-manhã, almoço e jantar. Se calhar, também nos lanches.
Foi assim os seus 24 anos e 7 meses, contados nos dedos.
E vivia bem, assim mesmo, a um palmo do chão.
Certo dia, a comida não caiu bem.
A mocinha teve um mal estar e conheceu a desilusão.
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“Sabes quando uma pessoa tem de fugir da outra porque tem e não porque quer?”

“Hum...”

“Sabes?”

“Sei.”

E ele fugiu. Escapou-lhe entre os dedos para nunca mais. Até que...


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Caro,

sinto dizer-lhe que falhei na missão. Durante quase um ano pensei ser um soldado forte o suficiente para lidar com os dissabores desta batalha. Imaginei poder levar tudo levemente...com um pacifismo diplomático e dentro dos limites éticos aceitáveis.

Porém...porém, comandante. Um ano de pensar torto foi colocado nos eixos em 2 dias...como no início, só que agora...sim, posso reconhecer o início.

Digo que falhei porque tinha me comprometido aos ideais. Jurei-lhes fidelidade acima de tudo. Fraqueza a minha...tornei-me vacilante logo no primeiro instante.

Creio que tenhas falado em desfazer e voltar atrás...Ora, comandante, pode-se desmanchar assim uma guerra do dia para o dia? Sinto se soei rebelde. Bem se sabe que um soldado disciplinado obedece às ordens que vêm de cima sem questioná-las. Mas devo admitir que já consigo ver-te uns degraus abaixo, à mesma altura dos meus olhos.

Não, não obtive sucesso como pretendia. Perdi a batalha e armei a guerra. Saiba que em meu vocabulário há falha, mas não recuo. Vestir-me-ei de vermelho assumido tantas vezes forem necessárias e sairei desarmada para abraçar ambas, vitória e derrota, como consequência das escolhas que fiz.

Sem mais preocupações, comandante.
Sem mais.
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Desde pequena aprendi que, para ser educada, era preciso, além de 397 regras de etiqueta 5 dúzias de palavras polidas, a não cobiçar as coisas dos coleguinhas. Um olhar mais interessado pela boneca alheia já despertava nos adultos aquela cara de “não começa ou você vai ver o que é bom pra tosse”.


Cresci. Com as rédeas sempre orientadas no sentido de valorizar o meu e apenas admirar o do outro, sem mais desejos. Creio que tenha sido bem educada então, até certo ponto, até certo dia, para ser mais exata. Desejar o que era dela não me parecia certo ao mesmo compasso em que era atraente.

Descobri que a poda, as regras, os limites, só me fizeram mais atraída pelo alheio. O jeito como ela o tocava...quase pude ver o pálido, porém sedutor brilho que se deitava sobre todas as coisas que eu ardentemente ambicionava sem poder ter. Uma era aquela, a que ela tinha.

Frustrante.

Tinha já decidido a recolocar as rédeas e andar na linha do juízo. Porém, há dias em que não se pode lidar com os acontecimentos ou a iminência deles. Ela estava ausente. Por que motivos? Não me interessavam. A livre presença do meu desejo passou a me guiar tão aflitivamente que perdi o senso de ser. Apenas estava.

Quando pus-lhe as mãos era como se todas as minhas células sensitivas tivessem entorpecido ao mesmo tempo. Queria os olhos abertos para acender a memória visual algum momento depois, mas era tudo sensações. Rendi-me. O hálito quente do alheio e as torpes palavras que tentei murmurar...estúpida. Então não tinha agora o que queria? Pensei, por último, antes que todas as fontes luminosas do meu corpo e das formas desanimadas à volta se apagassem.

Desde pequena aprendi que, para ser educada, era preciso obedecer aos adultos porque eles sabiam claramente para onde conduzir a humanidade com as suas 397 regras de etiqueta e 5 dúzias de palavras polidas. Agora, que sou um desses adultos, às vezes desfaço-me das leis e brinco com o alheio quando ela está ausente. Algum mal se eu puder esconder tudo dentro da caixa?


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O que move.
O que me move e faz querer, e faz sentir, e faz...
e faz-me.
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