Fui ao balcão pedir coragem.
Minha rua fica no 8º andar.
Moro no meio do quarteirão.
Quarto do corredor à esquerda.
200 gramas de cor, por favor. É para por na salada.
Coração tanto bate como alcança.
Inquieto, foi à rua e não voltou.
Tanto fez-me virar a esquina.
Já não vi sequer o rastro.
Foi bater em outro peito.
Fui bater outra porta.
Falta.
Uma porta no armário.
Um novo calendário.
Um pneu, uma bicicleta.
Uma tampa pro perfume.
Uma cortina na janela.
Uma parte do lençol.
Falta.
Preencher as palavras cruzadas.
Guardar a roupa lavada.
Comprar um peso de porta.
Arrancar os papéis da parede.
Anotar amanhã na agenda.
Falta.
Cor.
Papel.
Tinta.
Toalha.
Efeito
é feito
Falta
Você.
Talvez, tal vez.
E nada voltou a ser o que era.
Por causa do tal. Por causa da vez.
Traz aqui, Glorinha, um copo d´água e um colo querente de corpo cansado.
Hoje eu tô só meio. Hoje tô só metadinha.
Desde madrugada rolo que nem cachorro doido na cama. Fui eu que cutuquei o sol dizendo que já era hora de levantar.
Mas olhe, Glorinha, que caminhei tanto que as tiras da sandália ficaram frouxas e as batatas das pernas se esticaram.
Pois vim. Vim de lá de longe porque tinha saudade. E saudade você sabe, Glorinha, ou a gente se desenrola ou é enrolado por ela. A danada me deu um laço tão bem dado que tava mesmo era sufocado. Sentou foi aqui, ó, em cima do peito. Tava que não conseguia me virar pros lados. Tive que vir.
E pra vir, Glorinha, tive que andar um tanto amarrado ainda. Até que chegando mais perto, os braços dela foram se desfalecendo, foram se deixando cair. Aí eu puder correr mais. Aí eu pude chegar direito. Pulei cerca de três cercas pra encurtar caminho, pra não ter conversa. Então cheguei assim, de coração e pulmão na mão.
Mas venha cá, Glorinha, com o copo d'água e esse colo. Ainda quero ficar inteiro e dessa tal de saudade não levo mais rasteira, nem laço, nem abraço.
Um gosto de cidade na boca.
A cabeça avenida de ideias,
O coração esquina de aperto.
Para tudo na vida há concreto.
Dor a gente cura com asfalto.
Ele é um dia de silêncio e todos os bons ruídos ao mesmo tempo.
É silêncio porque as melodias podem estar erradas, o tom pode desafinar e as notas não se entenderem.
É silêncio porque não sei dizê-lo e as palavras são desnecessárias.
Noite passada sonhei que amava e era tudo silêncio, como só ele sabe ser.
No último dia 26, conheci a saudade.
Ela que tão distante parecia, tão alheia, queria agora ficar-me por baixo da pele.
Tentei negar-lhe a intimidade. Não sou muito dada à aproximação com estranhos.
Ali mesmo, no aeroporto, dei-lhe as costas. Ordenei que não me seguisse até o ponto de ônibus.
Sentiu-se ultrajada. A perversa cravou-me as unhas no peito e então compreendi porque as trazia tão compridas. Arrastou-me até em casa e colocou-me no colo aquela noite para que chorasse todas as outras em sua companhia que ainda estão por vir.
Digo eu que não sei cantar a saudade, então conto.
Conto todos os cantos e todos os contos de cantos que cantam para a saudade contar. Canta ela, que eu não sei contar cantos. Conto eu que ela não sabe cantar contos. Cantamos e contamos a conta, o canto, o conto.
Digo eu que não sei cantar a saudade, então tanto e ela tonta.
Tudo se fazia tão maior por conta dos pequeninos fatos. O ranger do assoalho e a sutil alegria de saber que estavam os dois acordados.
Dançavam uma valsinha de bom dia enquanto as torradas aprontavam-se a qualquer gosto. Eram risadas frouxas com gosto de margarina de espantar as nuvens que teimavam em cobrir o dia.
Entrelaçados estavam por dentro, bem aqui dentro do lado de fora. Café da manhã e almoço. Lanche da tarde e jantar. Eram-se. Estavam-se. Bastavam-se.
Era o dia mais quente do ano. O sol estalava nas superfícies todas. Caras contraídas no ônibus lotado e gotas de suor confundindo-se meio sem querer, meio bem querendo. No banco do fundo, do lado esquerdo, estava ela que era mais ausência que qualquer outra coisa. Parecia ter acordado no dia errado, daqueles de achar até mesmo as ruas tortas. Entortava-se então ela para endireitar o mundo. Nem dava jeito.
Irritava-a a divertida conversa da mulher ao lado no celular, o boa tarde efusivo da cobradora, a corrida estúpida do motorista para alcançar o sinal ainda verde. Queria que todos ali silenciassem para que ela mesma pudesse se ouvir. Enfureceu-se consigo pelas lágrimas que começou a derramar involuntariamente. Que estupidez! O que as pessoas vão pensar?
Pediu parada e caminhou apressadamente cheia de medo. Das lágrimas, das pessoas, de si. Confundia-se facilmente com a mureta cinza que cortava a avenida. Por ali, todos continuavam com suas vidas ignorando tudo que de torto havia naquela mulher.
Havia para além o mar. Mais vivo que toda a vida que havia nela. Ficaram ali sozinhos, apesar da tarde continuar acontecendo. Ela a tentar endireitar-se. Ele ondeando, ondulando. Tem mar torto ou só morto? Ou tudo que é mar, é mar e pronto? Esperou que ele pelo menos assobiasse. Nem por isso.
Com a mão no bolso do vestido, achou-se na volta pra casa e nunca mais perguntou nada ao mar.
O dia em que nos conhecemos, eu me lembro bem. Chovia como se a noite há muito precisasse tomar banho. Deixaram a torneira aberta lá em cima e a cidade ficou encharcada. Passei o dia inquieta porque sabia que você chegaria. Desconhecia como viria, a que horas bateria na porta ou se já tinha a chave. Tudo eram corredores e cadeiras de espera. Como se não me bastasse andar em círculos, passei a desenhar oitos nas paredes com a tinta invisível que trazia nos dedos. Passou-me a fome, o sono, o cansaço. Éramos eu e impaciência em um embate quase silencioso. Pareceram-me que anos tinham passado até que veio você deslizando. Todas as minhas expectativas foram superadas. Esqueci que não havia portas. Mesmo que houvesse, estariam abertas para te deixar passar.
Talvez você não recorde que naquele instante tinha se tornado meu maior objeto de curiosidade. Encarei-te com receio por longos minutos enquanto você se mexia desconfortavelmente. Não nos falamos, não nos tocamos. Você sequer parecia saber que eu estava ali. Até que, tremendo, estiquei meus descuidados dedos e você agarrou-se em todos aqueles que conseguiu alcançar. Senti que éramos a nós necessários.
Continuamos sem dizer qualquer coisa por muito, mas descobri nesse dia como nascem os amores e as pessoas.
Para o Lorenzo e por causa dele
Saí no último domingo e te deixei a porta aberta.
Já era quase segunda-feira e eu queria mesmo que fosse sábado ou quem sabe sexta.
Há dias em que a vida cabe nas palavras que te posso dizer ao ouvido
E outros em que faltam braços para envolvê-la.
Os minutos estão todos se espreguiçando.
As pessoas arrastam-se nas calçadas como se o céu estivesse pesado demais.
Escrevo-te duas ou três palavras nas linhas da mão esquerda
Para que sempre te lembres que eu lembro
Passaram-se não sei quantos tempos.
Devem até ter construído outras estradas e aberto o mar outras vezes,
Mas ainda tens o cheiro que eu queria sentir agora.
Saí na última segunda-feira e te deixei a porta aberta.
Já era quase sábado e eu queria mesmo que fosse sexta
Ou quem sabe domingo.
Há dias em que nos braços cabem as palavras que posso te dizer ao ouvido
E outros em que faltam vida para envolvê-las.
Assim que despediram-se e saíram aos sorrisos pelo corredor, sentiu-se sozinha como nunca antes. Era um dia cinza no meio de setembro e uns nacos de vento frio a faziam estremecer. Pisava o chão gelado com os pés nus até a cozinha. Não se lembrava de dia tão escuro como aquele. Era tempo ou pensamento? Começou a chover fino e a chuviscar lembranças dos últimos dias. Resolvera despir-se daquela roupa apertada chamada pele e sair de alma a céu aberto. Não lhe disseram que era perigoso. Esteve assim nas rodas e amou infinitamente outras almas aquela noite. Fez-se toda alegria por dúzias de horas que não saberia contabilizar, por fim.
Porém já era dia. Ali perto varriam as calçadas e cascos de conversas rolavam pelo asfalto iluminado. Assim em luz, todos pareciam bem mais tristes. As roupas de maquiagem borrada, as caras amarrotadas.
Era tão mesmo chuvisco, mas já estava encharcada. Verteu pelos azulejos da área de serviço observando a vida lá fora.
Andava colada à calçada, sem paciência para o meio fio. Naquele meio metro de cimento, vinham velhinhos e todos os seus anos nas costas, estudantes falando da farra do último fim de semana e 5 ou 6 pares de fones de ouvidos. Preferia dividir espaço com carros, motos e bicicletas. Um gosto agreste de egoísmo na boca.