Falta.
Uma porta no armário.
Um novo calendário.
Um pneu, uma bicicleta.
Uma tampa pro perfume.
Uma cortina na janela.
Uma parte do lençol.
Falta.
Preencher as palavras cruzadas.
Guardar a roupa lavada.
Comprar um peso de porta.
Arrancar os papéis da parede.
Anotar amanhã na agenda.
Falta.
Cor.
Papel.
Tinta.
Toalha.
Efeito
é feito
Falta
Você.
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Talvez, tal vez.
E nada voltou a ser o que era.
Por causa do tal. Por causa da vez.
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Traz aqui, Glorinha, um copo d´água e um colo querente de corpo cansado.

Hoje eu tô só meio. Hoje tô só metadinha.

Desde madrugada rolo que nem cachorro doido na cama. Fui eu que cutuquei o sol dizendo que já era hora de levantar.

Mas olhe, Glorinha, que caminhei tanto que as tiras da sandália ficaram frouxas e as batatas das pernas se esticaram.

Pois vim. Vim de lá de longe porque tinha saudade. E saudade você sabe, Glorinha, ou a gente se desenrola ou é enrolado por ela. A danada me deu um laço tão bem dado que tava mesmo era sufocado. Sentou foi aqui, ó, em cima do peito. Tava que não conseguia me virar pros lados. Tive que vir.

E pra vir, Glorinha, tive que andar um tanto amarrado ainda. Até que chegando mais perto, os braços dela foram se desfalecendo, foram se deixando cair. Aí eu puder correr mais. Aí eu pude chegar direito. Pulei cerca de três cercas pra encurtar caminho, pra não ter conversa. Então cheguei assim, de coração e pulmão na mão.

Mas venha cá, Glorinha, com o copo d'água e esse colo. Ainda quero ficar inteiro e dessa tal de saudade não levo mais rasteira, nem laço, nem abraço.

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Um gosto de cidade na boca.

A cabeça avenida de ideias,

O coração esquina de aperto.

Para tudo na vida há concreto.

Dor a gente cura com asfalto.

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Ele é um dia de silêncio e todos os bons ruídos ao mesmo tempo.

É silêncio porque as melodias podem estar erradas, o tom pode desafinar e as notas não se entenderem.

É silêncio porque não sei dizê-lo e as palavras são desnecessárias.

Noite passada sonhei que amava e era tudo silêncio, como só ele sabe ser.

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2011 logo vai-se e ainda estou em dúvida se me despeço saudosa. Esse ano, aliás, nunca estive tão propensa a isso. Despedi-me, despediram-se de mim e despedimo-nos. Até hoje não me considero preparada para tantos adeusinhos e até logos, porém dedici tirar vantagem disso e nasceu "A Passageira", que aguarda no Terminal 2 a chegada de 2012 e sua ida para as telas.

Ainda estou em dúvida se me despeço saudosa, mas esse ano fiz-me e desfiz-me em saudade. Deixei Teresina por um amor de carnaval pra vida toda chamado Rio de Janeiro. Estive em blocos de colombinas, soltei rolos e rolos de serpentina cinematográfica, conheci aqueles que fizeram para mim chuva de confete o ano inteiro, chorei rindo e ri chorando marchinhas. Irmãs de alma, amigos de vida. Cada passo, seja certo ou bêbado, dado por esses meses que já se foram nunca estive sozinha.

Hoje, ainda estou em dúvida se me despeço saudosa e se minha casa é lá ou cá. Mas ora, minha casa é onde estiverem eu e todos esses meus pedaços inteiros que vou encontrando, seja lá ou cá. Minha casa é onde eu possa saber que meu irmão aprendeu a andar de bicicleta. Minha casa é onde eu possa sentar no sofá com a Raquel e rir até não poder mais de qualquer coisa tola que passe na televisão. Minha casa é onde eu possa ouvir o Cézar falar até o saquê acabar. É onde mamãe vigia o tanto de margarina que eu coloco no cuscuz. É onde papai me chama de nenénzinha réa e logo depois fala da fatura alta do cartão de crédito. É onde a Ana Clara chega com um corte de cabelo cada dia mais moderno. Onde eu sento em uma mesa pra ouvir Caio, Lívia, Wilton, Irina, Filipe. Onde Rachel me acusa de displicência, mas diz que me ama mesmo assim e Sheyla, com seus 5 empregos, me liga dirigindo em auto estrada e comendo de hashi como se todo mundo fizesse o mesmo. Onde Paula e Adriana aprendem que gatan e gaton nem sempre querem dizer literalmente isso. Onde Sanmya continuar rindo na cara dos problemas, mesmo que eles continuem brotando loucamente.

Ainda, ainda mesmo estou em dúvida se me despeço saudosa, mas tenho certeza que fui amor. E estive tão em festa, tão inquieta, tão zangada, tão insone, tão feliz. Por isso, minha casa é também com José, aonde ele puder segurar minha mão para atravessar a rua ou onde ele puder ligar só para desejar boa noite, ou ainda onde ele ficar o dia todo de pijama porque o tempo está feio. E lá do outro lado do oceano, cuidei e fui cuidada. Para hoje e amanhã, pretendo continuar cuidando.
Esse ano eu. Esse ano nós. Esse ano a gente. Ano que vem tem mais.
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No último dia 26, conheci a saudade.

Ela que tão distante parecia, tão alheia, queria agora ficar-me por baixo da pele.

Tentei negar-lhe a intimidade. Não sou muito dada à aproximação com estranhos.

Ali mesmo, no aeroporto, dei-lhe as costas. Ordenei que não me seguisse até o ponto de ônibus.

Sentiu-se ultrajada. A perversa cravou-me as unhas no peito e então compreendi porque as trazia tão compridas. Arrastou-me até em casa e colocou-me no colo aquela noite para que chorasse todas as outras em sua companhia que ainda estão por vir.

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