Existe uma roda quadrangulando os cantos dos sorrisos agora. Era uma roda engraçada toda quadrada de tanto existir. Os esboços de felicidade escorriam dali para as pontas dos pés e davam forma a danças de passos desajeitados. Isso era a fórmula do estar contente. Ser demanda muito mais, demanda todo dia e todo dia não existe. Só o dia todo. Deram-se as mãos em um ímpeto de inconsciência afetiva. Era dia e não tinham notado. Era noite e tinham vivido.

Existe uma roda quadrangulando todos os peitos agora.

Isso é a fórmula do estar saudoso.


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Borboleteou-se toda para vê-lo aquele dia. Eram tantas formiguices, cigarrices e besoreios até que a hora chegasse. Camaleônico, ele bateu à porta e ofereceu-lhe o braço. Foram lagarteando pelas ruelas da cidade baixa.
E era tanta conversa gafanhotesca, tanto suspiro joanhinzento que a morcegada olhava como que censurando, como que invejando aquela passaranhisse.
Foram achegando-se um no outro. Pareciam querer colocar os juízos a beijar-se. Terminaram por aranhar-se sob um lençol branco de lua que vinha, abelhuda, por trás das nuvens, espreitar.




Quadro de Romero Brito





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Hão de existir sempre portas e janelas por onde não se pode passar. Estão lá os caminhos e as ditas cujas cerradas como que a vácuo.

Daí o protagonismo das frestas. Tão imperceptíveis, porém capazes de verter ou sorver a um prazo considerável. Quando chovemos, é por onde passam todas as gotículas de qualquer coisa.

É o espaço providencial entre os dedos, são os poros, é a alma. Essa, estive a tentar costurar os cantos para que não sobrassem pontas soltas e espacinhos. Em vão.

Estiveram a me afrouxar os pontos da alma e as frestas ficaram expostas. Fui chovendo, vertendo, sorvendo e sorvida. Tentei relutar, reamarrar, encerrar, reagir. Em vão.

Agora sei que por entre todas as frestas há sempre uma festa. Vou chuviscando, transbordando, absorvendo e absorvida. Então.



A Rachel, Sheyla, Lu, Aline, Bárbara e Santini
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Já não há mar que caiba o que eu quero dizer. Por isso deixei as palavras na nossa cama, os motivos na xícara do café e as agruras atrás da porta. Vou tirar-lhe do bolso quando pudermos fazer o mundo a quatro mãos e um dilema.
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Bem sabia dizer as coisas que bem lhe faziam, que bem lhe caíam, que bem lhe acertavam.
Bem sabia colher os sorrisos que bem lhe falavam, que bem lhe mostravam, que bem lhe mandavam.
Bem sabia escrever os versos que bem lhe saíam, que bem lhe cantavam, que bem lhe rimavam.
Só não bem sabia como bem saber de um bem que mal lhe fazia, mal lhe doía, mal lhe olhava, mas que, mesmo assim, queria tão bem.
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Só sabia ler as linhas das mãos e falar da língua das íris. Aprendeu a queimar o fogo antes que este o fizesse primeiro. Era filha do fim da tarde, dizia, já que a noite ocupou-se de muitas crias. Tinha a idade dos seus sapatos e o nome das estações do ano que só conhecia de ouvir falar. Podia estar Outona às terças e Primavera aos domingos. Apaixonava-se todos os dias, pois, segundo ela, o amor só dura 24 horas, depois disso é outra coisa. Repetia isso tanto quanto assumir que era viciada em cheirar roupas lavadas e passadas. Ela que preferia curvas a retas. Ela que não fazia questão de relógios de pulso por não querer pendurar o tempo no corpo. Ela que era bem mais ordinária fora dos floreios rabiscados para si todos os dias antes de dormir.
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11:32
Sinto muita culpa em dizer "não sei".
Culpa é aquilo que nem sempre é sua,
nem sempre tem explicação e
nem sempre tem razão de existir.
Não saber dói em algum lugar aqui dentro.
É o zumbido que os olhos não vêem
e a mão não consegue acertar.
Quando não sei o que sinto, fecho os olhos e o peito.
Com janelas e porta cerradas, fica mais fácil descobrir.
Amanhã é como o elevador descer inesperadamente.
Aquelas cócegas no umbigo...

11:35
Passado, presente e futuro são três minutos.

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