Veja bem.
O amor é feito de gente e gente é feita de várias coisas.
Quatro ou cinco mil gentes todos os dias são costuradas junto a retalhos incontáveis e coloridos de não sei o quê. Depois de assim unidos, ficam estendidos ao sol por uns dias. Por isso dizem que amar dá um calorzinho no coração.
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"Escreve pra mim". Ela pedia insistentemente, incansavelmente. Não tinha nada que ambicionasse mais que ser musa. Enchia-lhe os olhos e o peito as obras dedicadas a amantes, amadas e desejadas.

"Escreve pra mim". Beijava-lhe o pescoço e as mãos. Encarava-lhe como que mendigando a homenagem apoiado em seus joelhos. Ou sugeria maliciosamente enquanto confundiam os corpos no chão da sala.

Chegou naquele dia e não a encontrou no lugar habitual, com as pernas cruzadas na ponta esquerda do tapete. Estava no quarto, ao lado da mesa de trabalho. Entregou-lhe a caneta, deitou-se na cama.

"Escreve em mim?"

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Existe uma roda quadrangulando os cantos dos sorrisos agora. Era uma roda engraçada toda quadrada de tanto existir. Os esboços de felicidade escorriam dali para as pontas dos pés e davam forma a danças de passos desajeitados. Isso era a fórmula do estar contente. Ser demanda muito mais, demanda todo dia e todo dia não existe. Só o dia todo. Deram-se as mãos em um ímpeto de inconsciência afetiva. Era dia e não tinham notado. Era noite e tinham vivido.

Existe uma roda quadrangulando todos os peitos agora.

Isso é a fórmula do estar saudoso.


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Borboleteou-se toda para vê-lo aquele dia. Eram tantas formiguices, cigarrices e besoreios até que a hora chegasse. Camaleônico, ele bateu à porta e ofereceu-lhe o braço. Foram lagarteando pelas ruelas da cidade baixa.
E era tanta conversa gafanhotesca, tanto suspiro joanhinzento que a morcegada olhava como que censurando, como que invejando aquela passaranhisse.
Foram achegando-se um no outro. Pareciam querer colocar os juízos a beijar-se. Terminaram por aranhar-se sob um lençol branco de lua que vinha, abelhuda, por trás das nuvens, espreitar.




Quadro de Romero Brito





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Hão de existir sempre portas e janelas por onde não se pode passar. Estão lá os caminhos e as ditas cujas cerradas como que a vácuo.

Daí o protagonismo das frestas. Tão imperceptíveis, porém capazes de verter ou sorver a um prazo considerável. Quando chovemos, é por onde passam todas as gotículas de qualquer coisa.

É o espaço providencial entre os dedos, são os poros, é a alma. Essa, estive a tentar costurar os cantos para que não sobrassem pontas soltas e espacinhos. Em vão.

Estiveram a me afrouxar os pontos da alma e as frestas ficaram expostas. Fui chovendo, vertendo, sorvendo e sorvida. Tentei relutar, reamarrar, encerrar, reagir. Em vão.

Agora sei que por entre todas as frestas há sempre uma festa. Vou chuviscando, transbordando, absorvendo e absorvida. Então.



A Rachel, Sheyla, Lu, Aline, Bárbara e Santini
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Já não há mar que caiba o que eu quero dizer. Por isso deixei as palavras na nossa cama, os motivos na xícara do café e as agruras atrás da porta. Vou tirar-lhe do bolso quando pudermos fazer o mundo a quatro mãos e um dilema.
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Bem sabia dizer as coisas que bem lhe faziam, que bem lhe caíam, que bem lhe acertavam.
Bem sabia colher os sorrisos que bem lhe falavam, que bem lhe mostravam, que bem lhe mandavam.
Bem sabia escrever os versos que bem lhe saíam, que bem lhe cantavam, que bem lhe rimavam.
Só não bem sabia como bem saber de um bem que mal lhe fazia, mal lhe doía, mal lhe olhava, mas que, mesmo assim, queria tão bem.
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